Um homem também sente...

Reflexões em momentos especiais são só reflexões banais


|

Sábado, Novembro 27, 2004

... para lá...




Sai, dessa carcaça podre
Que te prende ao sofrimento
E despoja de sentido
Essa vida miserável.

Essa porta, mesmo à tua frente
Que tentas alcançar, mas não consegues.
E não consegues, miserável,
Porque o teu corpo podre não deixa.

É o escape para o mundo real,
A entrada para lado de lá,
Onde os sonhos se escondem,
Mas nem todos são felizes.

E, desprovido de vida própria,
Condenado ao esquecimento pelo destino,
Percorres, imóvel, o teu caminho,
E finges que afinal existes…

|

Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Pecados

De olhos castanhos, tu, sim tu, não és tu…
De olhos castanhos, cor dos sonhos, dos meus sonhos felizes, pensando nos teus olhos! Olhar matreiro, na tua simplicidade sabes que afinal és tu quem manda, és tu que fazes as regras, mas não o sabes. Esse olhar esconde uma beldade tamanha que temo conseguir compreende-la. Pois por trás desse olhar tão belo, desse castanho, cor das mais belas utopias sentimentais, cor do “não sei quê” que me fazes sentir, está toda uma pessoa frágil, escondida por esses olhos!
Tu não sabes, certamente, tu e não tu, como me fazes sorrir nos meus sonhos, e continuas a negar a tua soberba existência de olhar castanho, mas por mais que tente, nunca conseguirei imaginar-me observado por esses olhos.
“teus olhos castanhos(…) são pecados meus!!!

|

Sábado, Outubro 02, 2004

Os Fumadores

Os fumadores de sonhos reúnem-se para partilhar os seus gostos e desgostos. Param no tempo, esquecendo tudo o que os rodeia na complicada tarefa de alimentar o cachimbo dos sonhos e desilusões. Acendem a fornalha da alma, lentamente, tentando deixar acesa a chama dos ideais.
Na altiva esplanada do purgatório auto-julgam as suas acçoes para assim se libertarem por entre a neblina aromatizada, cheira a felicidade, onde todos se escondem e aí sim se vislumbram realmente.
Os fumadores não temem a morte precoce do seu corpo de adereço, amortalhados pela sua existencia que por momentos se dissipa, mas que apesar de tudo os marca por serem apenas fumo e sonhos.
Os fumadores não pensam, fumam, e quando sentem no ar o aroma cruel do crematório de amores e desamores sorriem, felicidade, tarefa cumprida...

|

Domingo, Setembro 26, 2004

Deusa

Olho-te, econdido, observador secreto.
Despida, a tua presença despreocupada
Extasía-me, fico com pele de galinha,
Vendo-te, nas alturas, tão bela.

A tua singularidade é tremenda,
Todos te observam mas ninguém vê como és,
Ninguém percebe, deusa, como me fazes tremer,
Reduzido à minha infâme existencia.

Iluminas-me, a mim e aos demais,
Que embora não reparem na tua presença
Não podem passa sem ela,
Não sem ficar tresloucados.

Esta noite, por entre as àrvores, observando-te,
Percebo qual a dor dos lobisómens,
E rendido à tua beleza, imóvel, fecho os olhos,
Mas, contudo, continuo a ver-te, Lua...

|

Quinta-feira, Setembro 23, 2004

Como um caminhante sem trilho

Como um Verão sem sol,
Nas nuvens, desnorteado.
Como um diamante sem brilho,
Perdido e assustado.

Como uma rosa sem cheiro,
Abandonado, choroso.
Como um caminhante sem trilho,
Destroçado e angustiado.

Pensativo e amedrontado
Como uma criança sozinha.
É assim, Deusa, que fico
Quando estou só, sem ti!

25Ago2004

|

Singularidade

Vejo, ao longe brilhando,
Reluzente, no areal imenso
Algo de fantástico, indefinido,
Causa espanto tanta beleza...

E não distingo, por mais que tente,
O que se confunde entre a areia.
Tento chegar mais perto, ansioso,
Procurando alcançar a luz que me cega.

Então aproximo-me, de vagar,
Com medo do que vou encontrar.
E quando vi do que se tratava
Incrédulo, sorri, espantado.

Entra aqueles milhões de grãos de areia
Destacado por um brilho inigualavel
Estavadestacado, orgulhoso e magistral
Um pequeno e sorridente grão de areia!

E pergunto o porque desta singularidade,
Que o destacava entre milhões.
E só percebo este poder imenso
Quando entre milhões te observo a Ti!

24Ago2004

|

Sábado, Agosto 21, 2004

Parabens

Menos 6940 dias de vida,
Tenho razão para comemorar?
Ninguém festeja lá fora,
Ao contrário do que se esperava…

Não ganharam os outros
Nem ganhei eu, perdi, novamente.
Perdi tempo de vida, que
Se esvaia por entre os meus dedos

Como grãos de areia jogados ao vento
Minutos perdidos sem nada ganhar.
Deixo fugir a vida, nada me sorri,
Num canto, só, isolado, desespero.

E se a minha vida até aqui
Sendo já longa se quiser resumir,
Não vão mais longe, basta os últimos meses
E saberão tudo o que sou, fui e nunca serei.

Porque tudo o que quis deixei escapar,
E nunca almejarei vitória de igual valor
Tudo o que peço, hoje, de oferenda divina
É a felicidade que, subitamente, perdi.

Pois tenho pena de ser como sou,
Querer o infinito para mim, triviais objectivos.
Mas dando tanta importância a toda a demanda,
O sabor da derrota, humilhante, estilhaça-me o coração.

5Jul2004

|

Terça-feira, Agosto 17, 2004

Surrealismo




Deitado sob a sombra de um Bonsai
Fumando detergente em papel de nota,
Faço bolas de sabão
E canto, mudo, canções de amor…

Sob um sol escaldante que congela
Comendo um cone com bolas quentes de gelado,
Vou subindo a rua descendente
Que atravessa o rio a nado.

E voam pássaros de origami,
Poisam nas cerejeiras em flor de girassol,
No ninho alimentam os seus elefantes bebés
E partem felizes em busca de mais comida.

Os peixes saltam alegres no mar de ácido
Onde se passeiam os barcos de papel.
Parados entre semáforos descontrolados
Desesperam cães e gatos a motor.

São assim os dias nos meus sonhos,
Nos sonhos onde, acordado, eu vagueio
Por mundos onde cada um faz o que quer
E a tristeza é palavra proibida…

|

Sentado, à janela,
Vejo perplexo
O céu lacrimejando,
Como eu…

As nuvens, negras,
Carregam tristeza,
Sós, perdidas,
Como eu…

É Verão e chove?!
O mundo, malogrado,
Sofre, infeliz e baralhado
Como eu…

E o céu porque chora?
Porque ama a terra
E não a alcança,
Como eu…

|



Procurando um bem inalcançável,
Percorrendo um país de lés a lés
Em busca da paz interior, perdida,
Esquecida entre lamentos e paixões.

Escondes-te do mundo que conheces
Para passares despercebido.
Mas temes estranhamento da solidão
Da qual foges, mas em vão.

Entre luas e sois que apressados te decompõem
Jogado no cesto da roupa suja,
Pela vida, misturado, confundido
Com as meias sujas da sociedade
Vais, às cegas, cambaleando
Teimosamente para a falésia.

E já estas farto de tudo isto,
Não te perdes já, cego e iludido,
Mas sabes que esse o teu caminho
E rumas feliz, ao infinito…

Pena Negra
25jun2004

|

Ampulheta



Junto ao mar, na noite escura
Ouves as ondas, cantam para ti.
Procuras entre as estrelas a mais desejada
E sentes o cheiro, profundo de maresia…

E, sentado na areia, sonhando,
Deixas escapar por entre os dedos
Os grão desta areia que cheira a vida,
Areia que se confunde na imensidão da praia.

Perturba-te o fumo do cigarro,
Temes o não viver o que tens direito.
Mas numa noite de lua nova
Sabe tão bem matares-te um pouco.

E as ondas cantam para ti,
E as estrelas brilham sorridentes
E tu continuas sentado, tremendo,
Vendo a areia fugir por entre os dedos…